Apple perde cerca de US$ 350 bilhões após alerta sobre falta de chips

A queda das ações da Apple apagou aproximadamente US$ 350 bilhões do valor de mercado da empresa nesta sexta-feira, 31 de julho. Os papéis encerraram o dia em torno de US$ 308,91, com recuo de cerca de 7%, após chegarem a cair quase 10% durante o pregão.

A reação ocorreu depois que a fabricante do iPhone apresentou uma previsão de crescimento abaixo das expectativas e alertou que a escassez de componentes limita sua capacidade de atender à demanda por iPhones e Macs. Com a desvalorização, a Nvidia voltou a ocupar a posição de empresa mais valiosa do mundo.

Previsão fraca provoca queda das ações da Apple

A Apple espera aumentar sua receita entre 9% e 11% no trimestre atual. No entanto, analistas de Wall Street projetavam um crescimento próximo de 12%.

Embora a diferença pareça pequena, investidores esperavam um desempenho mais forte após um trimestre positivo para as vendas de iPhones e Macs. Além disso, a companhia alertou que não consegue obter todos os componentes necessários para acompanhar a procura por seus produtos.

Inicialmente, a queda de quase 10% colocava a Apple no caminho para perder cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado. Porém, as ações recuperaram parte das perdas antes do fechamento. Ainda assim, o movimento marcou uma das piores sessões da empresa desde a queda provocada pela pandemia em março de 2020.

A forte reação também mostra como o mercado cobra resultados elevados das maiores empresas de tecnologia. A APIBrasil já analisou como a queda das ações de tecnologia reacendeu preocupações sobre chips e os custos crescentes da infraestrutura digital.

Data centers disputam chips com smartphones e computadores

A falta de componentes não afeta apenas a Apple. Grandes empresas de tecnologia compram processadores avançados, capacidade de fabricação e chips de memória para construir data centers voltados à inteligência artificial.

Consequentemente, fornecedores direcionam uma parcela maior da produção para componentes que atendem esse mercado. A disputa aumenta preços e reduz a oferta disponível para computadores, smartphones e outros dispositivos eletrônicos.

A Apple conseguiu reduzir parte do impacto ao usar estoques acumulados de memória. Contudo, Tim Cook afirmou que essa reserva está diminuindo. Além disso, a falta de processadores já impede a companhia de fabricar unidades suficientes para atender à demanda por iPhones e Macs.

O cenário ajuda a explicar por que empresas como a Meta desenvolvem componentes próprios. O projeto do chip de IA da Meta busca ampliar a capacidade dos data centers e reduzir parte da dependência de fornecedores como Nvidia e AMD.

Entretanto, mesmo chips personalizados dependem de fábricas, memórias e tecnologias de produção compartilhadas por diferentes setores. Portanto, o investimento em data centers pode pressionar toda a cadeia de semicondutores.

Apple diz que perdeu flexibilidade na cadeia de suprimentos

Tim Cook classificou as restrições como muito significativas e afirmou que a Apple possui poucas alternativas para contornar o problema no curto prazo.

A declaração chamou atenção porque o mercado reconhece o executivo por sua experiência na gestão da cadeia de suprimentos. Durante anos, a escala da Apple permitiu negociar grandes volumes, reservar capacidade de produção e administrar estoques com mais eficiência do que fabricantes menores.

Agora, porém, a corrida por infraestrutura computacional pressiona até mesmo uma empresa com o tamanho e o poder de negociação da Apple.

Cook fez a declaração em sua última apresentação de resultados como CEO. Ele deve entregar o cargo a John Ternus em setembro e assumir a função de presidente executivo do conselho.

Desaceleração dos serviços também preocupa investidores

A falta de componentes não representa a única preocupação. O crescimento da divisão de serviços também perdeu força, apesar do desempenho positivo das vendas de hardware.

Essa área reúne receitas da App Store, Apple Music, Apple TV e outras assinaturas. Como os serviços costumam apresentar margens elevadas e gerar pagamentos recorrentes, os investidores acompanham seu desempenho de perto.

Normalmente, o aumento da base de iPhones alimenta o crescimento das compras, assinaturas e pagamentos dentro do ecossistema. Por isso, a desaceleração durante um período de fortes vendas de aparelhos gerou dúvidas sobre o ritmo futuro da divisão.

A Apple registrou receita trimestral de US$ 109,42 bilhões, avanço anual de 16,4%. As vendas do iPhone cresceram 21,7%, enquanto as receitas dos Macs avançaram 28,7%. Por outro lado, os serviços cresceram 12,1% e ficaram abaixo das projeções do mercado.

Possível aumento de preços pode afetar a demanda

Analistas também esperam que a Apple aumente os preços da próxima geração de iPhones, tradicionalmente apresentada em setembro.

A empresa já enfrentou reajustes sem registrar grandes quedas na demanda. Ainda assim, um preço maior pode dificultar a decisão de compra em alguns mercados, principalmente se consumidores também enfrentarem inflação e custos elevados de financiamento.

Uma parceria recente com a Klarna oferece planos mensais para dispositivos Apple nos Estados Unidos. Essa modalidade pode reduzir o impacto imediato do reajuste ao distribuir o pagamento por períodos mais longos. No entanto, ela não elimina o aumento do custo total do aparelho.

Investidores ainda questionam retorno da estratégia de IA

A pressão sobre as ações também envolve dúvidas sobre como a Apple transformará inteligência artificial em crescimento de receita.

Enquanto concorrentes gastam centenas de bilhões de dólares em data centers, a Apple adotou uma estratégia mais contida e buscou parcerias para incorporar modelos externos aos seus produtos.

Um dos principais movimentos dessa estratégia envolve o acordo entre Apple e Google para levar o Gemini à Siri. A parceria pode acelerar a atualização do assistente sem exigir que a Apple desenvolva sozinha toda a infraestrutura necessária.

Entretanto, analistas do Morgan Stanley afirmaram que a inteligência artificial ainda não gera um impacto financeiro mensurável nos produtos e serviços da empresa. Além disso, o mercado continua sem clareza sobre como a Apple pretende monetizar esses recursos.

Nvidia recupera posição de empresa mais valiosa

Poucos dias antes da queda, a Apple havia ultrapassado brevemente a marca de US$ 5 trilhões em valor de mercado. Na ocasião, a companhia também retomou da Nvidia o título de empresa mais valiosa do mundo.

Após o fechamento desta sexta-feira, a Apple apresentava valor de mercado próximo de US$ 4,55 trilhões. Enquanto isso, a Nvidia alcançava aproximadamente US$ 4,90 trilhões.

A mudança mostra uma inversão importante. A Nvidia se beneficia diretamente da demanda por chips de data centers, enquanto a Apple enfrenta dificuldades porque essa mesma demanda reduz a disponibilidade de componentes para seus produtos.

Portanto, a corrida pela infraestrutura de inteligência artificial não afeta apenas empresas que desenvolvem modelos. Ela também altera preços, prioridades de produção e estratégias em toda a indústria de tecnologia.

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