SpaceX quer transformar Starlink em rede de celular

A Starlink Mobile deu um passo importante para entrar de vez no mercado de telefonia celular. A SpaceX fechou um acordo para adquirir licenças nacionais de espectro de 800 MHz nos Estados Unidos por cerca de US$ 8 bilhões, segundo fonte ouvida pela Reuters.

A compra, porém, representa apenas uma parte do desafio. Para competir diretamente com AT&T, Verizon e T-Mobile, a SpaceX precisaria construir uma ampla infraestrutura terrestre, conquistar clientes e ampliar significativamente a quantidade de espectro disponível.

Segundo estimativa da TD Cowen citada pela Reuters, uma rede nacional desse porte poderia exigir mais de US$ 80 bilhões em investimentos.

Por isso, a estratégia da SpaceX não será baseada apenas em satélites. A empresa pretende combinar a constelação Starlink com antenas terrestres instaladas em torres e prédios.

Starlink Mobile comprou espectro por cerca de US$ 8 bilhões

A SpaceX descreveu a aquisição das frequências de 800 MHz como um passo crítico para o desenvolvimento da Starlink Mobile.

O acordo envolve um portfólio nacional de espectro pertencente à Grain e ainda depende da aprovação da Federal Communications Commission, a FCC, órgão regulador de telecomunicações dos Estados Unidos.

As licenças incluem até 14 MHz de espectro pareado.

Em telecomunicações móveis, espectro representa as faixas de frequência utilizadas para transmitir dados sem fio.

Sem frequências adequadas, uma operadora não consegue oferecer conexões móveis em larga escala.

Entretanto, possuir o espectro não significa automaticamente possuir uma rede.

A SpaceX ainda precisará instalar infraestrutura capaz de utilizar essas frequências de forma eficiente, principalmente em áreas urbanas.

Starlink Mobile não dependerá apenas de satélites

A principal novidade da estratégia está na arquitetura híbrida.

A SpaceX planeja combinar sua rede de satélites com infraestrutura terrestre tradicional.

Isso inclui antenas instaladas em torres, telhados e outros pontos urbanos.

Assim, a Starlink Mobile poderá utilizar conexão direta entre satélites e celulares em locais com pouca cobertura e recorrer a antenas terrestres onde houver maior densidade de usuários.

Essa abordagem resolve uma limitação importante da telefonia via satélite.

Celulares possuem antenas pequenas e potência limitada. Como os satélites estão a centenas de quilômetros da superfície, manter uma conexão rápida e estável em ambientes urbanos ou dentro de prédios se torna mais difícil.

Consequentemente, uma rede exclusivamente espacial provavelmente não ofereceria a mesma capacidade de uma infraestrutura celular tradicional em cidades movimentadas.

Cidades são o maior desafio para a SpaceX

A Starlink construiu boa parte de seu sucesso oferecendo internet em regiões rurais e pouco atendidas por infraestrutura terrestre.

Nesse cenário, a empresa enfrenta menos concorrência direta e consegue atender usuários que antes dependiam de conexões mais lentas.

O mercado celular funciona de maneira diferente.

Grandes cidades concentram milhões de dispositivos em áreas relativamente pequenas. Além disso, prédios, paredes e outras estruturas podem interferir no sinal.

Por isso, operadoras instalam milhares de antenas e pequenas células para distribuir capacidade.

A SpaceX precisará construir uma infraestrutura semelhante caso queira competir diretamente com as grandes operadoras.

Além disso, terá de investir em atendimento ao cliente, distribuição de aparelhos, marketing e subsídios de smartphones.

Ou seja, a parte espacial resolve apenas uma parcela do problema.

Rede pode custar mais de US$ 80 bilhões

A TD Cowen estima que construir uma rede terrestre nacional capaz de apoiar a Starlink Mobile poderia exigir mais de US$ 80 bilhões.

Esse investimento se somaria a outros projetos altamente intensivos em capital da SpaceX.

A empresa continua financiando o desenvolvimento do foguete Starship e ampliando sua infraestrutura de satélites.

Além disso, também investe em projetos ligados a computação e produção de chips.

O mercado de telecomunicações exige capital constante.

Segundo analistas citados pela Reuters, as três maiores operadoras americanas investiram aproximadamente US$ 650 bilhões em infraestrutura durante a década anterior a 2023.

Portanto, entrar nesse setor representa um desafio diferente de lançar novos satélites.

SpaceX poderá usar até 15 mil satélites para telefonia

A SpaceX já possui autorização regulatória para operar até 15 mil satélites Starlink Mobile.

Esses equipamentos podem se conectar diretamente a celulares compatíveis.

Entretanto, a própria estratégia divulgada pela empresa mostra que os satélites trabalharão em conjunto com a rede terrestre.

Em algumas situações, o satélite poderá se comunicar diretamente com o smartphone.

Em outras, poderá retransmitir sinais por meio da infraestrutura em solo.

Esse modelo já aparece na parceria entre Starlink e T-Mobile.

Nesse serviço, a Starlink fornece cobertura por satélite em regiões onde não existem torres, enquanto a T-Mobile mantém a rede terrestre e a relação comercial com os clientes.

SpaceX pode virar uma operadora completa

A grande diferença agora é que a SpaceX parece querer construir mais infraestrutura própria.

Uma alternativa seria operar como MVNO, sigla usada para operadoras virtuais que utilizam a rede física de outra companhia.

Nesse modelo, a SpaceX poderia comprar capacidade de uma operadora existente e vender seus próprios planos.

No entanto, analistas acreditam que a empresa caminha para uma estratégia mais independente.

Isso explicaria tanto a compra de espectro quanto os planos para instalação de antenas terrestres.

Caso essa estratégia avance, a Starlink Mobile deixaria de funcionar apenas como complemento para redes tradicionais e começaria a competir diretamente com elas.

Espectro ainda é pequeno perto das grandes operadoras

Apesar do investimento de aproximadamente US$ 8 bilhões, a SpaceX ainda possui uma quantidade limitada de frequências em comparação com as principais operadoras americanas.

Analistas estimam que a empresa precisaria de várias vezes mais espectro para atingir capacidade semelhante à das líderes do setor.

Mesmo assim, as frequências adquiridas podem ser suficientes para iniciar as operações.

Isso permite que a SpaceX desenvolva a infraestrutura enquanto aumenta gradualmente sua base de usuários.

Por outro lado, crescer rapidamente pode criar gargalos.

Quanto mais clientes utilizarem a rede simultaneamente, maior será a necessidade de espectro, antenas e capacidade de transporte de dados.

Rede híbrida pode mudar a conectividade em áreas sem cobertura

Mesmo que a SpaceX não consiga competir imediatamente com as maiores operadoras, a arquitetura híbrida possui vantagens importantes.

Uma delas é reduzir áreas sem cobertura.

Regiões rurais, estradas e locais isolados costumam ser caros para operadoras tradicionais porque construir torres para poucos usuários pode não compensar financeiramente.

Satélites ajudam a preencher essas lacunas.

Ao mesmo tempo, antenas terrestres podem assumir o tráfego onde existe alta demanda.

Assim, uma rede híbrida consegue utilizar tecnologias diferentes conforme o ambiente.

Esse princípio também aparece em arquiteturas digitais, nas quais sistemas distribuem serviços entre diferentes infraestruturas de acordo com disponibilidade, custo e capacidade.

Starlink pode ampliar competição em telecomunicações

A entrada da SpaceX no mercado móvel ainda levará tempo.

Executivos de T-Mobile e Verizon argumentam que apenas possuir espectro não basta para competir com redes construídas durante décadas.

Essa avaliação encontra respaldo no tamanho do investimento necessário.

Por outro lado, a SpaceX possui uma vantagem que novas operadoras tradicionais não teriam: uma constelação global de satélites já em operação.

Portanto, a Starlink Mobile começa com uma infraestrutura espacial que pode complementar a rede terrestre desde o primeiro dia.

Agora, o ponto principal será observar quanto a SpaceX realmente pretende investir em torres, antenas e operações comerciais.

Se o plano avançar, a Starlink poderá deixar de ser apenas uma alternativa de internet via satélite e se transformar em uma operadora híbrida capaz de conectar celulares por terra e pelo espaço.

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